segunda-feira, agosto 30, 2010

Invisibilidade Pública


Tese de Mestrado na USP por um PSICÓLOGO

'O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE'

'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'
Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'.
Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:
'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz.
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei peloandar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei nabiblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida.
Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado.
Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.
E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.
E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa.
Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei.
Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.
*Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!
Plínio Delphino, Diário de São Paulo.

30 comentários:

Mariana disse...

Ontem como postei"que faço amizade com Deus e todo mundo,é verdade,desde criança sou assim.
Quando vou colocar um lixo no carrinho do gari,eu o cumprimento,e tem um que é meu amigo,o seu Pedro,gente finíssima.
Eu gosto muito dele.´Não gosto das pessoas pela cor da sua pele,sua conta bancária ou beleza física,as pessoas me conquistam e para mim ,isto basta.

Folhas de Andreza disse...

...luz no olhar...ternura no sorriso...eis o que é preciso pra me conquistar...
Linda semana com bjks doce no ♥

Cantinho She disse...

Oie querida Mariana, menina excelente post! Sabe que esse seu post me fez muito lembrar uma passagem em minha vida, precisei panfletar na rua para a empresa que eu trabalho e fiquei boba como eu era totalmente invisível, era perceptível que as pessoas me sabiam ali, mas não se dignavam a olhar para mim, nem para fazer um sinal de não com a cabeça, o que dirá agradecer, ou responder o meu bom dia, ou boa tarde... confesso que fiquei boba... e fiz uma autoanálise de como eu tratava as pessoas que panfletam na rua... confesso que mudei... rs
Beijo, beijo! ;)
She

Ju Fuzetto disse...

Aiii tão lindo esse post...

Eu sorrio para todos na rua...rsrsrs

Um beijo e boa semana linda flor

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Mariana
Essa reportagem é de arrepiar. A gente nunca para pra pensar nessas coisas, e vamos nos desculpando, justificando com uma série e coisas e tudo passa a ser normal.
Beijos

Lau Milesi disse...

Mariana, eu li sobre o assunto. Muito lindo.
Isso é que é laboratório.

A máxima de Saint Exupery, "o essencial é invisível aos olhos" se aplica à situação de uma forma não muito poética, não é?
O preconceito impera , amiga, infelizmente.

Mariana, os amigos que me acompanham como blogueira, desde O Globo, sabem que meu encanto pelo cavaquinho se deu através do talento de um gari que trabalha na minha rua.Foi ele quem me ensinou a pegar no cavaco.[rs]

Grande Robson, um talento.

Belo post, amiga.

Beijossss

ValeriaC disse...

Mariana florzinha...muito bom voce colocar este texto... por enfatizar claramente que todos somos iguais, não importa as aparentes diferenças...todos temos sentimentos,merecemos respeito e consideração.
Tenha uma adorável semana amiga...beijos...
Valéria

Cigana do Oriente disse...

É Mariana, eu já tem algum tempo que percebi isto. Tinha recebido uma canalização que falava dos lixeiros
Aí quando eu fui colocar o lixo fiquei observando o menino mas ele nem me olhou, parecia que já estava acostumado com essa situação ou por vergonha não sei
Como eu corri com as sacolas porque tinha esquecido o horário, quis agradecer pra ele, mas não deu, ele só pegou o lixo e se foi... me deu uma pena sei lá... é muito triste isso né?
Beijos e ótima semana pra você!

Daniel Savio disse...

Não tem um trabalho pequeno demais que não possa receber um muito obrigado...

Fique com Deus, menina Mariana.
Um abraço.

lucidreira disse...

É o que sempre acontece no dia a dia de uma pessoa, quando é simples e normal.
Agora quer conhecer quem é a pessoa, dê poderes a ela? Daí verás quem realmente é.
Abraço

Marilu disse...

Querida amiga, acho que uma coisa primordial em uma sociedade é a educação, um país sem educação nunca vai ser de primeiro mundo. Cabe a nós ensinar nossas crianças a ter respeito pelo outro..Tenha uma linda semana..Beijocas

Chica disse...

Incrível isso,li essa reportagem e ´tem gente que nem os olha mesmo.Pena!beijos

orvalho do ceu disse...

Olá, querida
Já conheci o texto e considero-o incrível desde que o li pela primeira vez...
Somos prestigidos por cargos... honras... não pelo que somos na essência... pois se assim o fosse... um olhar em nossos olhos bastaria para que nos "reconhecessem"...
Muito legal vc ter postado esse desafio pra TODOS NÓS!.
Bjs e paz interior pra vc.

ONG ALERTA disse...

Mariana infelizmente o ser humano só ve o que ele quer, não respeita as pessoas pelo o que elas são, somos todos iguais não importa a atividade de cada um e recebemos um papel chamado dinheiro, mas isso não nos torna melhor ou pior que alguém.
Bárbara a experiência deste psicólogo, beijo Lisette

jader/zezi disse...

Mariana...é bem assim, o SER OU O TER...são desta forma q a maioria das pessoas julgam as outras, priuncipalmente as q tem menos ESTUDO, ou q não tiveram oportunidade na vida de aprenderem, pois foram obrigados a trabalhar cedo, para ajudar a familia ou ate mesmo por preguiça deixaram o estudo de lado...e desta forma se tornam DISCRIMINADOS E ATE MARGINALIZADOS PELA SOCIEDADE HIPOCRITA EM Q VIVEMOS NESTE PAIS DESIGUAL.- jader martins.-

Atreyu disse...

falta educação também neah? e muito

Toninhobira disse...

Pois é Mariana eu conhecia esta historia e comprova, o vale quanto pesam que tanto se aplica a nossa sociedade perdida em seus preconceitos arcaicos e por vezes odiosos.A invisibilidde dos desprovidos é latente, basta um exercicio para se comprovar como os estereotipos são vigentes. Parabens pela reflexão, bom ter voce passado pela minha pagina.Praze eum abraço de luz e paz.

joaquim do carmo disse...

O preconceito é um dos problemas mais difíceis de vencer na sociedade!
Beijinho muito grato pela sua e comentário

Minéia Pacheco disse...

Olá Mariana,

Somos todos iguais diante de Deus!

Sempre cumprimento a todos independente de qualquer coisa!

Devemos sempre tratar bem sem olhar a quem!

Beijinhos...

brasildobem disse...

Mari como psicóloga que sou, lembrei de uma cadeira na faculdade que dizia exatamente isso, as pessoas que trabalham com uniformes de garis, faxineiras, zeladoras...não são reconhecidas pelo uniforme, porque na verdade, ninguém as olha....que incrível isso não é mesmo?
Bjs

HSLO disse...

Nossa que postagem viu. Já sentir isso na pele, porém de outra forma.
Ano passado cair de moto e por conta disso, tive que usar moletas...foi o x da questão.
Eu sentir várias pessoas que me conheciam ficarem distante de mim por conta das moletas sabe....e ai, comecei a me sentir estranho. A pessoas gostam de ver o padrão somente.

Cris disse...

Mariana!
Penso que essa situação tem uma razão histórica. Diria que é o mesmo "mito da mulher triste".
Até alguns anos atrás,uma pessoa
com qualquer deficiência, era escondida da sociedade. Hoje,é a sociedade que as procura.
Hoje, uma pessoa "deficiente tem garantido no mínimo um trabalho"
http://www.deficienteonline.com.br/
Posso até ouvir da boca dos preconceituosos: "É só por causa da lei das cotas"!
Prefiro pensar que é a evolução da Sociedade.
Evolução que vc trás em seus questionamentos e que nos faz pensar.
Beijos!

"Cantinho Poético" disse...

Minha poesia
É a imagem lúcida
Captada
Do facho de luz
Dos teus olhos,
Que eu converto em palavras.

Oswaldo Antonio Begiato


Saudações Poéticas! Beijos!!

Kelly disse...

Que legal seu post de hoje MAriana. Trabalho num bairro onde vejo e sinto diariamente a invisibilidade das pessoas, aí fica fácil levar a fama de bairro mais violento, a polícia aparece quando chamada? Não! Conselhot Tutelar aparece? Não!
Um verdadeiro descaso, se comparassemos a cidade a uma grande casa, os bairros de periferia seriam o quarto de despejo, como já dizia Maria Carolina em seu livro.
Beijos

Fatima disse...

Conheço este texto e sempre trabalho em sala de aula com meus alunos.
Se queremos que o mundo mude temos que fazer a nossa parte.
Bjs.

Marcia disse...

Caríssima Mariana, nada mais natural que este preconceito ocorra num país como o Brasil, onde o trabalho honesto não tem valor algum. Dois trabalhadores brasileiros, já provaram esta tese, sobre os seres "invisíveis",um foi o senhor Francenildo, que teve seu sigilo bancário quebrado e divulgado em jornais pelo PeTralha ex-ministro do Lulla, Palocci e o outro o motorista do Collor. Vc se lembra deles? Todos dois foram testemunhas de algumas, dentre tantas, falcatruas cometidas pelo dois doutores em deliqüência e que que governam o país. Veja que tanto o PeTralha Palocci como o Collor, falaram abertamente de suas falcatruas, na frente destes dois trabalhdores "invisíveis". E o que aconteceu a estes dois canalhas? Foram reeleitos!No Brasil as pessoas fazem questão de apertar a mão de político, de puxar o saco deles, mesmo sabendo que eles não valem um ovo podre, enquanto que desprezam quem trabalha duro e honestamente. E taí o Boris Casoy como porta-voz da grande inversão de valores que é o Brasil. Ele desrepeitou e ofendeu dois garis em rede nacional, ao vivo e ficou por isso mesmo. É isso aí, querida! É muito triste esta constatação. Pior ainda do que dá valor ao que as pessoas tem e não ao caráter delas e não se importar se o que elas tem é roubado. Grande beijo, Márcia de Noriê

J Araújo disse...

Já tinha lido este texto; isso mostra como os mais humildes são vistos pela sociedade. Demonstra ainda que essa mesma sociedade vê mais a aparecia e menos o valor do trabalho de cada um.

Parabéns pela transcrição.

Bj

Cacá disse...

Na época que tomei conhecimento dessa tese, eu tinha uma irmã que estudava na USP. Comentei com ela e ela foi conhecer o rapaz. Ficou impressionada com a comprovação do cotidiano dele. Quer dizer, talvez antes ela também fosse mais uma que contribuia para a invisibilidade dele. Abraços. Paz e bem.

Pena disse...

Estimada e Linda Amiga que não esqueço pelo valor de ouro puro como concebe textos preciosos de encanto e fascínio.
Registei:
"... Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.
*Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!..."

É uma pura verdade.
Beijinhos amigos ao seu talento de maravilhar e deslumbrar.
Sempre no maior respeito e admiração.

pena

Excelente! Adorei.
Bem-Haja, fantástica amiga.
Como pode ser tão brilhante.

Pensador disse...

E quantos "invisíveis" não passam por nós a cada dia?