sexta-feira, outubro 11, 2013

A virada

Pessoas supersticiosas são aquelas que não suportam o vazio de sentido. É preciso preencher todos os espaços, inclusive e principalmente o do acaso, com o véu apaziguador da circunstância cósmica inescapável. Um raio cai a dois metros de distância de alguém, e aquele elemento da natureza se transforma imediatamente em algum tipo de mensageiro de sinais ocultos. Se o raio acerta em cheio e pulveriza o azarado, haverá uma alma inocente para dizer que era para ser, que ninguém escapa da própria sorte e coisa e tal. Em 100% dos casos, porém, um raio é apenas um raio – e podemos nos dar por muito satisfeitos, enquanto espécie, por termos aprendido uma ou duas coisas que nos ajudam a evitar que eles caiam sobre nossas cabeças com mais frequência ainda.

O filósofo-cientista-poeta romano Lucrécio, que viveu no século 1 AC, foi um dos primeiros pensadores da nossa era a sacudir o coreto da superstição que corria solta em sua época. No poema Sobre a Natureza das Coisas, que ecoa ideias de Epicuro e de outros filósofos gregos, Lucrécio propõe que a humanidade deixe as superstições para trás e corra de braços abertos para a lógica, a razão e a ciência. Ou seja: em vez de ficar acreditando que raios são castigo dos céus, tratar de descobrir por que caem e como dar no pé quando eles se aproximam.

O delicioso A Virada – O Nascimento do Mundo Moderno, do historiador americano Stephen Greenblatt, conta as aventuras do caçador de livros que encontrou os manuscritos de Lucrécio em uma empoeirada prateleira de um mosteiro na Alemanha, em 1417. O historiador defende a tese de que a descoberta, mais ou menos acidental, foi decisiva para a história da humanidade. Ao afirmar que o universo funciona sem o auxílio de forças sobrenaturais, o livro de Lucrécio, argumenta Greenblatt, pode ter dado o impulso que faltava para a Europa sair da trevosa e amedrontada Idade Média, dando início ao processo histórico que desembocaria na modernidade e na nova ordem social simbolizada pelo 14 de julho.

Uma das ideias de Lucrécio era exatamente a de que tudo que existe é fruto de uma “virada”, um pequeno desvio que resulta em algo novo e revolucionário. Para Greenblatt, o livro de Lucrécio marcou uma dessas “viradas” – definitiva e luminosa.

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Em 1988, um livro de capa verde e amarela veio à luz no Brasil sob a expectativa de uma virada não menos dramática, ainda que de alcance mais restrito: encerrar o ciclo de desigualdades, de fato e de direitos, que marcou os primeiros 500 anos de história do nosso país. As reportagens sobre os 25 anos da Constituição de 1988, porém, dividiram espaço nos jornais desta semana com os resultados das investigações sobre a morte do pedreiro Amarildo, torturado e morto pela polícia do Rio como se a chamada “Constituição cidadã” nunca tivesse existido – ou valesse apenas parte do tempo, para apenas parte das pessoas.

Talvez 25 anos seja um tempo muito curto para uma “virada” radical e definitiva. Talvez a nossa esteja ali na esquina, bem perto, quase ao alcance dos olhos. Por enquanto, não deixa de ser uma circunstância cósmica irônica, se não inescapável, que a morte em nada excepcional ou revolucionária de Amarildo tenha acontecido justamente num 14 de julho.
Claudia Laitano
Zero Hora 05/10/13

quarta-feira, outubro 09, 2013

Velhos órfãos

Com o envelhecimento da população, cada vez mais pessoas se tornam órfãs em idade avançada. Perdi meu pai quando tinha 38 anos e ele chegara aos 70. Em julho de 2013 perdi a mãe, aos 98. O amigo Geraldo SantAnna, no velório, contou que sua avó costumava dizer: Só se fica adulto quando se é órfão, e órfão é quem não tem pai nem mãe. O rabino Ariel disse palavras semelhantes quando falou na hora do enterro.

Poucos dias antes, Paula Span publicara um artigo no New York Times sobre o assunto. Perdera o pai em dezembro, aos 90 anos. Ela publica sobre famílias com pais idosos. Vários dos comentários de Paula têm a ver com a experiência recente, minha e de meus irmãos, nos últimos anos com nossa mãe, e no que acontece depois.

Esta orfandade não é como a tragédia de alguns personagens de Dickens. Quando não há mais patriarca nem matriarca, quando já não se é o filho de alguém que está vivo, não há mais uma geração se interpondo entre a nossa e a morte. Nós somos a próxima e somos confrontados com a nossa própria finitude. Por isso, a perda do primeiro que se vai é diferente. Ali ainda fica um a ser consolado, cuidado, apoiado.

Durante anos, telefonemas entre irmãos começaram por “está tudo bem”, e só então se entrava no assunto. Agora, as ligações se iniciam por “alô, olá, oi”... O que nos uniu e ocupou nos últimos tempos da mãe, como há 30 anos quando nosso pai adoeceu, deixou de existir. Como iremos nos relacionar daqui em diante? Iremos?

Ter pais vivos até idade avançada é um privilégio. Mas ser o filho de alguém por tantos anos e já não ser causa impacto profundo. Não há alívio pelo fim dos cuidados e preocupações. Há, sim, um vazio imenso.

Se a relação foi boa, a perda faz sentir falta da convivência longa e prazerosa. Quando não era tão boa assim, pode haver a dor adicional do desperdício de ocasiões para resolver conflitos.

Não ter mais a última pessoa que esteve conosco desde que nascemos e podia contar detalhes, que sabia quem era aquela tia numa foto antiga, entendia uma piada só nossa ou lembrava um apelido familiar, são faltas definitivas que passamos a perceber.

Quando a velhice fica crítica, sabemos que o fim e consequente perda se aproximam. Podemos estar preparados, nunca estamos prontos. Na hora, a dor da perda e o luto têm que ser vividos. É o único caminho. Não há atalhos. Saber dos sentimentos de outros nessa fase pode ajudar a nos sentirmos menos sós.

Flavio José Kanter - Médico

Fonte: Zero Hora 08/10/12

terça-feira, outubro 08, 2013

Pai de meu pai

Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.

É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.

É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe.

É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.

A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.

Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.

No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:

– Deixa que eu ajudo.

Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.

Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.

Aninhou o pai.

Acalmou o pai.

E apenas dizia, sussurrado:

– Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.

Fabrício Carpinejar
Zero Hora 06/10/13

sábado, setembro 21, 2013

A graça da coisa

Tem quem não consiga enxergá-la de jeito nenhum, o que para mim é o mesmo que nascer sem um pé ou sem uma orelha. Quem não vê a graça da coisa, vive com um pedaço faltando. Nada que impeça o sujeito de acordar, trabalhar, viajar, mas é chato.


A graça da coisa está em quase tudo, só que é preciso ter um olhar aberto e curioso para percebê-la, pois nem sempre ela fica evidente. Às vezes, exige leitura de entrelinhas, bom manejo da ironia, benevolência com o sarcasmo. É onde está a graça da coisa.

Mas, por sorte, ela não costuma ficar escondida. É até bem exibida.

Um filme B, daqueles que é puro lixo, pode se tornar cult se for assistido sem emburramento por uma plateia a fim de diversão. Um amigo resolve colocar os pés na cozinha pela primeira vez e o resultado é a pior massa grudenta da história. Que tal um sarau lá em casa para a gente cantar as músicas de acampamento dos nossos 16 anos? Sim, ao violão, todos bem desafinados.

Ela ronda por aí, nas aparentes roubadas que se tornam inesquecíveis por motivar tantas gargalhadas.

O que impede a graça da coisa de circular mais livremente é o excesso de seriedade que tomou conta do mundo. Esse tal de politicamente correto, então, é um inimigo declarado da graça. E os que não se desapegam do próprio ego também. Eles ficam de um lado, se achando, e ela fica de outro, boquiaberta: qual o sentido de se dar tanta importância?

A graça da coisa está justamente nas desimportâncias.

Quanto menos obsessão por elogios, por cargos e por poder, mais livre ficamos para reparar nas pequenas nuances por trás das afetações. Em tudo na vida há uma centelha de inocência que corrompe nossa rigidez e permite a entrada de uma alegria descompromissada e renovadora. A graça da coisa não tem assento reservado em camarote Vip nem lugar no pódio dos campeões, ela é simplesmente a piada espontânea surgida nos bastidores.

Há que se zombar da vida maluca que levamos e procurar a graça da coisa em nossas fracassadas investidas amorosas, nos erros em que nos viciamos, nas discussões de relação que sempre se repetem, nas tentativas de aparentarmos sabedoria, nas rugas que tentamos suprimir puxando a pele com as mãos em frente ao espelho, em nossos defeitos favoritos, nas reprises das brigas familiares, no nosso saudosismo meio brega, no nosso vocabulário do tempo do onça. Em tudo há uma graça infantil, uma consciência comovente das nossas impossibilidades. É só desempinar o nariz.
A Graça da Coisa nome do próximo livro da Martha.
Martha Medeiros
Fonte: Zero Hora

segunda-feira, julho 01, 2013

O que revelam as manifestações?

A onda de manifestações que atinge as principais cidades brasileiras já entrou para a história. Cinco características são marcantes: 1. Mudança comportamental. O silêncio da população frente a situações indesejadas deu lugar a protestos veementes. 2. Ausência de uma pauta única de reivindicações. A questão do valor das passagens foi somente o estopim dos protestos, que passaram a contemplar outras questões, passando pela corrupção, má qualidade dos serviços públicos, gastos com a Copa do Mundo, privilégios de corporações etc. 3. Noção de que a irresignação popular não pode ficar restrita ao mundo virtual das redes sociais. Para ganhar força e ser eficaz, um protesto tem que ganhar as ruas. 4. Pluralidade de atores e ausência de lideranças. Para a maioria dos participantes, o comparecimento às ruas tem sido espontâneo, fruto de um sentimento de mudança. 5. Caráter apartidário. As manifestações estão repelindo as agremiações partidárias, o que revela o esgotamento do atual sistema eleitoral, a descrença nos partidos políticos e nos seus quadros.

Essas características, por sua vez, levantam questões relevantes: qual será a duração desses movimentos? A partir do instante em que a pauta de reivindicações é ampla, não se esperam resultados em curto prazo. Contudo, se a pressão popular ceder, as reivindicações tendem a perder força. Os protestos tendem a descambar para a violência? Por mais simpática que seja a causa, ela não resistirá à violência, que não é tolerada pela sociedade. O desafio está nas mãos das autoridades que, em colaboração com a maioria pacífica dos manifestantes, têm que remover dos protestos aqueles que, mediante atos violentos, abusam do direito de protestar.

Como a mensagem dos manifestantes será recebida e interpretada por quem detém o poder político? A amplitude das reivindicações, somada à ausência de lideranças, dificulta a interlocução dos seus objetivos. Por fim, esses movimentos terão repercussão nas eleições de 2014? Um baixo índice de renovação dos órgãos de representação coletiva no próximo pleito seria uma contradição com a própria ideia que as manifestações passam. Por certo, o país enfrenta um momento de aprendizado e de reflexão.

*Professor de Direito Constitucional, doutor em Direito do Estado
MARCELO SCHENK DUQUE* | *PROFESSOR DE DIREITO CONSTITUCIONAL, DOUTOR EM DIREITO

Fonte: Zero Hora

terça-feira, junho 18, 2013

O Povo Precisa Acabar Com a Sua Passividade:


É preciso protestar, reagir,chega de ser um povo inerte. É preciso exigir candidatos melhores, estou cansada de votar no menos pior. A reforma política precisa sair do papel, os impostos precisam ser bem aplicados, é preciso dar um basta para a corrupção.
Não é possível aceitar que foi investido mais de um 1 bilhão para o Mané Garrincha ( em Brasília não tem clubes de futebol ); 1 bi no Mineirão; 1 bi no Maracanã; 800 milhões no Fonte Nova; perdão da dívida dos países africanos; doações de helicópteros da FAB à Bolívia; doações para a construção de um centro médico na palestina; gastos absurdos nas viagens ( US$19 mil foi o valor da diária da suíte presidencial do hotel onde Dilma se hospedou em Nova York em setembro passado. A parada técnica em Atenas, onde visitou museu e o Parthenon antes de ir à China (abril de 2011), custou US$ 121,3 mil só em hospedagem e diárias de servidores...) o remédio que ajudou a curar o câncer da Dilma foi vetado pelo SUS...(esqueci de algo mais?).
Enquanto isso o povo não encontra atendimento médico digno.
Os presídios não socializam os presos e sim tornam eles doutores e mestres em crimes, e quem sofre as consequências com o caos nos presídios é a sociedade.(sim, somos nós).
Se queremos uma escola melhor, que não falte professor, nossos filhos precisam estudar numa escola privada.
Nunca me conformei com a passividade do povo.
É preciso votar melhor e também fiscalizar sempre. Sou a favor do protesto, jamais da destruição do patrimônio público e privado.
Espero que o maior protesto seja feito nas urnas.
Nunca aceitarei a violência... nada a justifica.
Dizem que o Brasil melhorou, só se foi para "eles".
Esta é a minha opinião.

segunda-feira, abril 15, 2013

Simples, fácil e comum

Tenho mergulhado numa questão que parece prosaica, mas é de importância vital para melhor conduzirmos os dias: por que as pessoas rejeitam aquilo que é simples, fácil e comum?

O mundo evolui através de conexões reais: relacionamentos amorosos, relacionamentos profissionais e relacionamentos familiares – basicamente. É através deles que nos enriquecemos, que nossos sonhos são atingidos e que o viver bem é alcançado. No entanto, como nos atrapalhamos com essas relações. Tornamos tudo mais difícil do que o necessário. Estabelecemos um modo de viver que privilegia o complicado em detrimento do que é simples. Talvez porque o simples nos pareça frívolo. Quem disse?

Não temos controle sobre o que pode dar errado, e muita coisa dá: a reação negativa diante dos nossos esforços, o cancelamento de projetos, o desamor, as inundações, as doenças, a falta de dinheiro, as limitações da velhice, o que mais? Sempre há mais.

Então, justamente por essa longa lista de adversidades que podem ocorrer, torna-se obrigatório facilitar o que depende de nós. É uma ilusão achar que pareceremos sábios e sedutores se nossa vida for um nó cego. Fala-se muito em inteligência emocional, mas poucos discutem o seu oposto: a burrice emocional, que faz com que tantos façam escolhas estapafúrdias a fim de que pelo menos sua estranheza seja reconhecida.

O simples, o fácil e o comum. Você sabe do que se trata, mas não custa lembrar.

Ser objetivo e dizer a verdade, em vez de fazer misteriozinhos que só travam a comunicação. Investir no básico (a casa, a alimentação, o trabalho, o estudo) em vez de torrar as economias em extravagâncias que não sedimentam nada. Tratar bem as pessoas, dando-lhes crédito, em vez de brigar à toa. Saber pedir desculpas, esclarecer mal-entendidos e limpar o caminho para o convívio, ao invés de morrer abraçado ao próprio orgulho. Não gastar seu tempo com causas perdidas. Unir-se a pessoas do bem. Informar-se previamente sobre o que o aguarda, seja um novo projeto, uma viagem, um concurso público, uma entrevista - preparar-se não tira o gostinho da aventura, só potencializa sua realização.

Se você sabe que não vai mudar de ideia, diga logo sim ou não, para que enrolar? Cuide do seu amor. Não dê corda para quem você não deseja por perto. Procure ajuda quando precisar. Não chegue atrasado. Não se envergonhe de gostar do que todos gostam: optar por caminhos espinhentos às vezes serve apenas para forçar uma vitimização. O mundo já é cruel o suficiente para ainda procurarmos encrenca e chatice por conta própria. Há outras maneiras de aparecer.

Temos escolha. De todos os tipos. As boas escolhas são divulgadas. As más escolhas são mais secretas e, por isso, confundidas com autenticidade, fica a impressão de que dificultar a própria vida fará com que o cidadão mereça uma medalha de honra ao mérito ao final da jornada. Quem acredita que o desgaste honra a existência, depois não pode reclamar por ter virado o super-herói de um gibi que ninguém lê.

Martha Medeiros 
Zero Hora- 14/04/13  

quarta-feira, março 13, 2013

Deus em Promoção


Pouca coisa me escandaliza, mas fiquei perplexa com o vídeo que andou circulando pela internet, que mostra um culto da Assembleia de Deus conduzido pelo pastor Marco Feliciano – sim, o polêmico
 presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, o maior para-raios de encrencas da atualidade.

O vídeo mostra o momento da coleta de dízimos e doações, a parte mercantilista da negociação dos fiéis  com o Pai Supremo, de quem o pastor se julga uma espécie de contador particular, pelo visto. Entre frases  inibidoras, como “Você vai mesmo ficar com esse dinheiro na sua carteira?”, dirigida a pessoas da plateia, 
e estimulando que os trabalhadores cedam uma porcentagem do seu salário dizendo “Aquele que crê dá um jeito”, aconteceu: alguém entregou seu cartão de crédito nas mãos do pastor. No que ele retrucou: 
“Ah, mas, sem a senha, não vale. Depois, vai pedir um milagre pra Deus, Ele não vai dar, e aí vai dizer que Deus é ruim”.
Entendi bem? Deus está à venda? Cobrando pelas graças solicitadas?

Essa colocação do pastor bastaria para abrir uma CPI contra os caras de pau que, abusando da esperança  de gente sem muito tutano, arrecadam fortunas e depois vão fazer suas preces particulares em algum  resort em Miami. Quem dera houvesse um Joaquim Barbosa para colocar ordem nesse galinheiro  falsamente místico, mas quem ousa? Se essa simples crônica já sofrerá retaliações, imagine alguém peitar  judicialmente um representante de Deus, ou que assim se anuncia.
Religiosidade é algo extremamente respeitável. Cada um exerce a sua com a intensidade que lhe aprouver,  de forma saudável, a fim de conquistar bem-estar espiritual. Todas as pessoas religiosas que conheço, e são inúmeras, nunca precisaram comprar sua fé nem dar nada em troca – conquistaram-na gratuitamente  através de cultura familiar ou de uma necessidade pessoal de conforto e consolo que é absolutamente  legítima.
Religião é, basicamente, isso: conforto e consolo.

Já os crentes fazem parte de outra turma. São os que acreditam cegamente em pecado, castigo, punição e  numa recompensa que só virá depois de algum sacrifício. Quando não pagam em espécie, abrem mão de  prazeres terrenos como forma de penitência, para se tornarem dignos da vida eterna – que viagem.
É preciso ser muito iludido para acreditar que pagar a conta de luz é menos importante do que pagar pelo milagre encomendado a Deus através de seus “assessores” – e que, segundo o pastor Marco Feliciano, só será  realizado se você não tiver caído na malha fina do Serasa Divino.
O que fazer para tirar os crentes desse transe? Colocar na cadeia esses ilusionistas que se apresentam como  pastores? Duvido que ajude. A bispa Sonia e seu marido Estevam Hernandes foram condenados por lavagem  de dinheiro e de nada adiantou. Se fossem condenados por lavagem cerebral, quem sabe.
Zero Hora 13/03/13

segunda-feira, março 04, 2013

Infiltrações

"Aqui tudo parece que é ainda construção, e já é ruína”.

Conversava com um amigo sobre o vexame que foi a abertura daquele buraco no conduto Álvares Chaves na semana passada, durante um dos temporais mais enérgicos ocorridos em Porto Alegre, e nos veio à lembrança essa parte da letra da música Fora da Ordem, do Caetano Veloso. Não é o caso de tratar desse assunto isoladamente (por mais absurdo que seja o fato de um investimento tão alto numa obra de drenagem resistir apenas quatro anos), mas de analisarmos o contexto todo: vivemos num país maquiado, em que se as coisas “parecerem” benfeitas, já está ótimo.

A Arena também serviria como exemplo de uma obra entregue às pressas para cumprir calendário, mesmo sem condições básicas de uso. Mas também não pode ser visto como um caso isolado. Há outras tantas em andamento, todas com prazo máximo de 15 meses para serem concluídas (até o início da Copa), e me pergunto: o corre-corre não comprometerá o bom acabamento de viadutos, pontes, prédios e estradas? Com a intenção de viabilizar orçamentos, não se estará sacrificando a qualidade do material empregado? Os funcionários em atividade estão bem preparados ou fazem um serviço matado, a toque de caixa? Dá pra confiar na espinha dorsal do Brasil?

Há que se ter cuidado com infiltrações. De todos os tipos, aliás. Com a infiltração de inconsequentes em meio a uma torcida, capazes de disparar um artefato com poder destrutivo em direção a outras pessoas, sem levar em conta que o gesto poderá ferir gravemente alguém ou até mesmo matar – como matou o garoto boliviano de 14 anos. Com a infiltração de médicos e enfermeiros sem ética dentro de hospitais, que desligam aparelhos que mantêm vivos os pacientes, a fim de “desentulhar a UTI”. Com a infiltração de políticos desonestos nas entranhas do poder, que mesmo acusados por crimes diversos assumem cargos de presidência de instituições.

Por fora, bela viola. O Brasil hoje é visto como um país moderno e estável. É uma aposta mundial considerada certeira, um candidato VIP a juntar-se às superpotências. Mas como andará o esqueleto desse país que se declara tão sólido? Na verdade, o Brasil é um jovem com osteoporose precoce, um país descalcificado, que fica em pé à custa de aparências, comprometido com sua imagem pública, mas que segue com uma infraestrutura em frangalhos.
 Aqui pouco se investe seriamente em educação, em treinamento de pessoal, em qualificação de mão de obra, em fiscalização, em responsabilidade social, tudo o que alicerça de fato uma nação. Nossa mentalidade “espertinha” faz com que não gastemos muito dinheiro com o que fica oculto, com o que não dá para exibir. O resultado? Por dentro, pão bolorento.
Martha Medeiros
Zero Hora 03/03/13

quinta-feira, fevereiro 07, 2013

Eles eram Filhos


Desta vez, me pegou. Já vi coisa feia nessa profissão. Já fui repórter de polícia, já fui repórter de todas as editorias, testemunhei acidentes com mutilações graves e tumultos sangrentos, violências e exumações, revolta e dor. Vi a miséria humana. Mas, agora, essa tragédia de Santa Maria me abalou. Não por causa das cenas horrendas dos corpos no chão do ginásio, naquele momento em que caminhei pelas sombras do vale da morte. Não. Isso foi chocante, claro que sim, mas não foi o que me ficou no peito. O que me matou por dentro é que ali todos eram filhos.

Filhos.

Uma pessoa, quando ganha um filho, deixa um pouco de ser, ela mesma, filha. Sua condição muda. Agora ela não é mais apenas receptora, é também doadora de amor.

A realização do ser humano é tornar-se doador de amor, mais do que receptor. Claro, essa realização não se dá apenas com a paternidade e a maternidade. Padrinhos e madrinhas, tios e tias e até amores românticos podem suprir essa necessidade de amar.

Mas o objeto de amor, o filho, enquanto ele vive só na condição de filho, é como se ele estivesse no começo, como se estivesse na fase de estreias da existência. Há muito ainda pela frente e, por ele não saber o que há pela frente, há quem o vele e guarde – são os seus pais.

Um filho que já teve filho lega a seus próprios pais outro ser para guardar e velar: o neto. Quer dizer: o amor que os pais tinham por aquele filho, de certa forma, é um amor já realizado, como o de amantes que se casaram. O amor continua, mas, por ser realizado, é um amor aplacado da gana e da fúria, é um amor sem ansiedade, um amor de primavera, não de verão.

Já um filho que ainda não teve filho é objeto de um amor pulsante, um amor aflito, que acorda de madrugada para contar a ausência do ser amado no relógio.

Os jovens que estavam deitados sem vida no ginásio de Santa Maria encontravam-se nessa condição. Eles eram filhos. Raríssimos deviam ser pais. Talvez nenhum o fosse. Não por acaso, o celular de um deles tocava sem parar, 10, 20, 30 vezes. Os voluntários olhavam para o celular, depositado sobre o peito do jovem morto e liam no painel quem chamava: “Mãe”.

Foi isso que me pegou: pensar nas mães e nos pais daqueles meninos e meninas. Porque todos acham que os filhos são dependentes dos cuidados dos pais, quando é o contrário: os pais é que são dependentes do bem-estar dos filhos. Pois, afinal, o amor que se dá é muito mais valioso do que o amor que se recebe. Pois, afinal, amar acaba sendo mais importante do que ser amado.

David Coimbra- Zero Hora 01/02/2013