quinta-feira, outubro 06, 2011

Paternalismo desnecessário: Nós, as eternas desprotegidas

"Como é sabido, um comercial de lingerie da qual Gisele Bündchen é garota-propaganda está sendo considerado ofensivo às mulheres. No comercial, se aconselha a melhor maneira de uma esposa dar uma notícia ruim ao marido: primeiro Gisele aparece vestida, dizendo que bateu o carro dele, e depois aparece de calcinha e sutiã dando a mesma notícia. De igual forma quando avisa que estourou o cartão de crédito ou quando comunica que a mãe dela vai morar com eles. Situações clichês entre casais, vistas com bom humor. Se um homem perde o rebolado ao ver uma beldade em trajes sumários (outro clichê), então é assim que se vai amansar a fera.
Seria apenas mais um comercial valendo-se de uma piada, sem nenhuma consequência para a moral da sociedade, mas como temos hoje uma mulher chefiando a nação, a Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República se sentiu no dever de pedir que a propaganda saísse do ar. Um tiro no pé. Como se não tivéssemos massa cinzenta suficiente para julgar o que assistimos.
Ter uma presidente demonstra que estamos alinhados com uma mentalidade menos preconceituosa e indica que possivelmente nossa soberana tenha maior sensibilidade para avaliar questões que interessam às mulheres, como desigualdades salariais, ausência de creches, violência doméstica, dificuldade de fazer mamografias e tantos outros fatores cuja interferência do Estado é bem-vinda. Palpites em propaganda de lingerie, não carece.
Mulher nenhuma vai esperar o marido de calcinha e sutiã à luz do dia, no meio da sala, a não ser que tenha perdido o juízo ou seja, de fato, uma übermodel. Mulher não convida a mãe para morar com o casal, salvo em casos de emergência ou como recurso para terminar o casamento de vez. Mulheres não batem o carro mais do que os homens, só arranham um pouquinho. Mas é verdade que toda mulher sonha em ser Gisele. Como jamais será, comprar a calcinha e o sutiã que ela usa dá uma falsa ilusão de parecença.
Propaganda mostrando mulheres frívolas que escolhem um homem por causa do carrão dele, ninguém comenta. Mulheres de avental e com um espanador na mão sendo trocadas por um jogo de futebol (papel que a própria Gisele encarnou numa campanha de canal por assinatura) tampouco causam estranhamento. Homens comparando mulher e cerveja, normal. Por que uma mulher utilizando sua sensualidade em benefício próprio seria uma influência mais danosa?
Chega desse paternalismo com as mulheres, como se a gente fosse umas bobocas que não sabem pensar, não sabem avaliar o que veem e não sabem rir de si mesmas. Os publicitários se valem de estereótipos e não denigrem a imagem de ninguém, a não ser a deles mesmos, quando fazem comerciais ineficientes – o que, pela polêmica gerada, não foi o caso. E o governo tem coisa bem mais séria com que se preocupar. I hope"
Fonte:Zero Hora 05/10/11

7 comentários:

Ângela Coelho disse...

Mariana! Concordo com tudo que a Martha Medeiros escreveu.
Quem é a mulher que vai conseguir "amansar" o marido com estes subterfúgios? Só se tiver uma Gisele dentro das roupas de baixo.
Creio que a Secretária pensou que os brasileiros perderam a capacidade de discernir entre piada e realidade.
Beijos.

Tunin disse...

A proibição da propaganda é subestimar a inteligência da mulher. Cada uma sabe o que quer e deve assistir. Infeliz atitude. Abração.

ONG ALERTA disse...

Infelizmente hoje usam este tipo de subterfugio para conseguir ibope...
como dizem para vender vale tudo...
Enfim isso acontece no mundo inteiro, beijo Lisette.

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga

Penso que as faculdades
deveriam ensinar
mais sobre o pensar,
sobre as atividades
que realizamos.

As vezes as propagadas
reforçam na ânsia de sucesso,
estereotipos que não
mais condizem com os
tempos e anseios atuais.

Que a luz da vida
esteja sempre em teu olhar.

Cacá - José Cláudio disse...

Oi, Mariana. Eu acho que a publicidade não cria estereótipos, mas os reforça o tempo todo. As propagandas com mulheres são sim, depreciativas, mas se as próprias mulheres fazem defesa de seu livre arbítrio com forma de se protegerem ou de ignorarem esta ou aquela que as denigre, então acho certo. Um abração. Paz e bem.

LUCONI disse...

Olha meu amor eu adorei isto, Martha Medeiros foi muito feliz em sua crônica, beijos Luconi

Denise disse...

Concordo. É melhor q o governo passe a olhar para as falcatruas q atingem ministros e mancham sua imagem. Propagandas absurdas tem aos montes. Muito bem colocada suas observações. Muita paz!